Texto de Enzo Santos

Os Chicago Boys foram um grupo de estudantes chilenos que, sobre a tutela de Milton Friedman, conseguiram implementar de forma bem-sucedida uma verdadeira revolução econômica no Chile, estando seus efeitos ecoando até os dias atuais.

No início dos anos 70, esses estudantes de Chicago foram chamados pelo então presidente general Augusto Pinochet para consertarem a economia chilena após o desastre econômico implementado pelo comunista Salvador Allende.

O contragolpe de 1973 é muitas vezes representado como a força destruidora da democracia chilena. Tais caracterizações são meias-verdades na melhor das hipóteses.

No final dos anos 1960 e início da década de 1970, a democracia do Chile já estava bem na estrada para a autodestruição. O historiador James Whelan pegou sua essência trágica quando escreveu que o Chile era uma “democracia canibal, consumindo-se”.

Eduardo Frei Montalva, presidente do Chile de 1964 a 1970, ajudou a trazer Salvador Allende como seu sucessor, mais tarde, chamou a presidência deste de “carnaval da insanidade”. Direitos sociais cada vez mais ativistas acabaram por sobrecarregar as responsabilidades da sociedade. A ilegalidade tornou-se desenfreada. A violência esquerdista descontrolada também tinha sido escalada durante o governo do democrata-cristão Frei Montalva, antes de Allende se tornar presidente e muito antes de Pinochet desempenhar qualquer papel na política chilena.

Em 1970, Allende ganhou com 36,2% do voto popular. Allende e sua coligação, Unión Popular (UP), composta por partidos comunistas e socialistas, nunca tendo vencido uma eleição por voto da maioria, muito menos um mandato, em qualquer eleição, tendo, apenas chegado ao poder por acordo com o ex-presidente Eduardo Montalva.

O regime militar chileno de 1973 a 1990 foi autoritário, certamente, mas não totalitário. Esta distinção é fundamental. Regimes totalitários legitimam e praticam níveis muito elevadíssimos de penetração em todos os aspectos da economia, da sociedade, da religião, da cultura e da família, enquanto os regimes autoritários não.

Os regimes totalitários têm partidos individuais dominantes; ideologias desumanas em nada coerentes (como o comunismo e teocracia islâmica), altamente articuladas e amplamente disseminadas; tendo níveis muito elevados de mobilização em massa e participação dirigente – manipulada pelo regime; e um controle rigoroso sobre os candidatos, quando há qualquer, e as políticas. Já regimes autoritários têm mentalidades além das ideologias, baixos níveis de participação nas políticas orgânicas da sociedade, pluralismo limitado e existência de políticas e políticos contrários aos mesmo (incluindo a imprensa), com algumas limitações é claro.

Tornou-se moda recentemente afirmar que o sucesso do Chile começou em 1990, durante o primeiro governo civil desde 1973. Essa afirmação é falsa. O histórico é claro. O presidente Pinochet e os seus conselheiros civis, após um processo elaborado e moroso de deliberação e tomada de decisões de 1973-1975, em que foram considerados vários cursos alternativos de ação, colocaram em prática o conjunto “radicalmente novo” de ideias relacionadas ao livre mercado.

Foram quatro pilares: a) uma taxa de câmbio flutuante; b) políticas monetárias soberanas em favor do peso chileno; c) diminuição massiva da carga tributária; e d) um fluxo de incentivos fiscais continuo, sem burocracia e taxação. Estes elementos não mudaram, e até agora nenhum governo pós-1990 propôs, ou seriamente considerou, destituir estes pilares do Monetarismo.

Hoje em dia, quase todo o globo depende menos do estado e mais nos mercados do que em 1973. O primeiro país do mundo a fazer esta ruptura com o socialismo e capitalismo de bem-estar social extremo para aplicar e desenvolver estruturas e políticas orientadas ao mercado não foi a China de Deng Xiaoping ou a Grã-Bretanha de Margaret Thatcher no final dos anos 1970 e nem a América de Ronald Reagan em 1981 – mas o Chile de Pinochet em 1975 sobre a tutela dos Chicago Boys.

Por outro lado, enquanto Pinochet conduzia muito bem a economia com os alunos de Milton Friedman, os militares brasileiros erraram – e muito – em como guiar economicamente o nosso país: alta carga tributária, fechamento do mercado e juros altos foram algumas das más decisões tomadas pela Junta Militar que governou o Executivo brasileiro.

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